Silicon Valley e a reengenharia do jornalismo digital

 10.01.2020: 08:34 PM      159
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Como as principais plataformas de mídias sociais criaram ambientes nativos para atrair as melhores redações das empresas tradicionais de comunicação visando o controle absoluto do processo de produção e distribuição de conteúdo jornalístico

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O negócio do jornalismo industrial sofreu duro ataque disruptivo com explosão da internet. Inicialmente ele aderiu à Web replicando seu conteúdo na rede. Depois adaptou o conteúdo impresso para o online. Só nos últimos anos passamos a produzir o conteúdo diretamente na Internet.

A partir de 2010, o jornalismo impresso outro ataque devastador das mídias sociais. Como resultado, assistimos a debandada da audiência para plataformas  como Facebook, Twitter, Youtube, Whatsapp, Instagram, etc.

Até houve tempo suficiente para uma reação do setor, como aconteceu com o comércio eletrônico das lojas de departamento, mas as empresas de comunicação não conseguiram vencer a barreira cultural.

Ao invés de investir na incorporação das novas tecnologias e conceitos de rede social para criação de um novo modelo de negócio, teimaram com seus belos portais, submissos ao processo e conteúdo do modelo tradicional do jornalismo industrial.

As tentativas de enviar iscas de conteúdo grátis para reconquistar a audiência perdida para estas plataformas não surtiram o resultado esperado. Como assinaturas digitais até cresceram bem, mas o faturamento mal cobre os custos operacionais herdados do modelo tradicional.

As mídias sociais têm o controle crescente da audiência, incluindo um gigantesco banco de dados, pronto para ser monetizado. Eles nunca se interessaram em remunerar o bom conteúdo colaborativo voluntário dos jornalistas ou mesmo compartilhar informações e métricas como as mídias tradicionais.

Diante da queda de audiência, pouco interesse nas assinaturas de impressões e esvaziamento da publicidade, muitas empresas do jornalismo industrial fecharam suas oficinas focando exclusivamente nos portais.

Empresas tradicionais perdem audiência à medida que aumentam o conteúdo das mídias digitais


Com a perda dos anúncios impressos e digitais, a imprensa convencional nos EUA tiveram seu faturamento reduzido de U $ 50 bilhões em 2005 para cerca de U $ 15 em 2016.

Como o prejuízo crescente, a saída para o estancar a crise foi fechar parcialmente o conteúdo com o paywall poroso e resgatar uma audiência das plataformas com o melhor conteúdo possível.

Até que coisa andou bem por algum tempo. Em 2016, o Facebook respondia por 45% de todo o tráfego referencial para os sites de notícias. O Google vinha em segundo com 31% dos direcionamentos.

Mais uma vez não a manobra não funcionou como se esperava. Fez foi provocar uma forte reação das plataformas.

Percebendo a tatica dos editores, as plataforma digitais decidram que era hora de controle também do processo editorial, deixando mais uma vez os produtores tradicionais de notícias confusos sobre seu futuro.


A desculpa para esta manobra estratégica do Facebook, Google, Youtube, Apple e outros players, não poderia ser mais esfarrapada: Assim que estourou a polêmica sobre o “fake news”, pós-eleição de Trump em 2016, elas passaram a desenvolver módulos de jornalismo social em suas plataformas, um ambiente editorial, combinando a ação de algoritmo com curadoria humana.

Surgiram então vários projetos como Apple News, Facebook Instant Articles, Facebook Newsfeed, Facebook Journalism Project, Google Newstand, Amazon Echo, Instagram Stories, Twitter Moments, Snapchat Discover, entre outros.

A tática lembra um pouco o que aconteceu com as indústrias musical e cinematográfica. Primeiro estas plataformas digitais oferecem tecnologia grátis para jornalistas em troca de conteúdo "on demand", depois fica bem mais fácil se se apropriar de toda a cadeia de produção.

Exatamente o que Apple, Facebook, Google fazem agora ao acenar para as grandes empresas jornalísticas, produtoras de conteúdo com ambientes de operação direta e internamente em suas correias de transmissão.


Segundo pesquisa publicada agora em março de 2017 pelo Tow Center of Digital Journalism na Columbia Journalism School, as maiores organizações noticiosas dos EUA já aderiram e estão usando intensamente as 23 mais importantes plataformas sociais.

Clique aqui para baixar o arquivo completo da pesquisa em PDF.

A pesquisa apurou que as 14 organizações estudadas publicaram 24 mil posts nas 23 principais plataformas de mídias sociais em 2016. Destes, 12 mil posts foram feitos em modo nativo, ou seja, internamente nas plataformas tecnológicas. Em 2016, só a CNN publicou 2,8 mil posts de notícias diretamente nas plataformas Snapchat e Apple News.

O uso do ambiente nativo do Facebook cresce rápido, ainda que alguns prefiram postar chamadas.

O ataque das plataformas sociais é forte. Se a velocidade da convergência continuar, mais jornais e revistas impressas deverão parar de circular e seus portais perderão importância no mundo dos negócios online como produtores, distribuidores, provedores e monetizadores de conteúdo de alto valor agregado.

Quem não faz, leva. Há muito falamos que os barões da mídia tradicional deveriam se mexer rápido e investir fortemente para continuar no ramo da comunicação. Deveriam aderir sem preconceito ao que existe de mais moderno em tecnologia digital e criar novos negócios com excelência em conteúdo do zero, assim como fizeram seus pais e avós no século passado.

Pensar que tiveram uma década inteira para se reinventarem, se apropriarem desta tecnologia visando desenvolver um novo ecossistema combinando o valor do bom conteúdo jornalístico com o encantamento do ambiente das redes sociais para o público consumidor de informação.

A CNN é entre os grandes quem mais se utiliza das redações nativas das redes sociais


Esta tecnologia do encantamento não é mais segredo. “Significa dar um pouco de dopamina de vez em quando, porque alguém curtiu ou comentou sobre uma foto ou uma postagem ou qualquer outra coisa. Isso vai te ajudar a contribuir com mais conteúdo e trazer mais curtidas e comentários”, confessou Sean Parker, um dos fundadores do Facebook hoje com 2 bilhões de usuários.

Bem verdade que os empresários do setor nunca contaram com apoio dos jornalistas colaboradores e seus sindicatos, sempre contrários às mudanças no status quo, sem nunca levar em conta que a profissão também corria perigo. Alguns resistiram fortemente às alterações de normas contratuais e processos de trabalho para folgarem na zona de conforto antes que o barco afundasse.

Empresários e profissionais da comunicação deveriam ter feito exatamente o o que as megacorporações do meio digital estão fazendo com eles agora. Ou seja, usar a tecnologia para criação de um novo modelo de negócio e assimilar a cultura do encantamento das redes sociais para fidelizar sua audiência já aculturada com as facilidades da comunicação.

Como fez com o iTunes para controlar a indústria da música, a empresa de Jobs usa agora o Apple News


O fato é que neste momento as plataformas digitais estão competindo para ver quem oferece o melhor ambiente de produção de notícia para atrair as melhores redações das empresas jornalísticas tradicionais. Algumas aplicações já estão operacionais esperando os parceiros do jornalismo industrial.

Ocorre porém que esta oferta de parceria esconde uma armadilha para o parceiro entrante. O retorno do investimento não remunera adequadamente o parceiro produtor, sua marca sofre enorme prejuízo com a perda de branding, a receita publicitária some pelo ralo e estes sequer têm acesso aos dados coletados sobre sua própria audiência.

Outro problema ainda não dimensionado completamente é o da influência negativa das plataformas sociais na qualidade do jornalismo. Como contrapartida pela oferta de incentivos, estas plataforma tendem a influenciar fortemente a natureza do conteúdo, incentivado práticas  bizzaras de vídeos ao vivo engraçadinhos, padrões de design engessados e outros conceitos editoriais pouco convencionais na mídia tradicional.

A sorte das empresas jornalísticas tradicionais está lançada. Aquelas que fugirem da integração com estas plataformas digitais estarão morta, mas se resolverem aderir não ganharão prosperarão. Eis a questão que determinará a sobrevivência ou morte da mídia tradicional no futuro próximo.

Veja que o volume de publicações nas plataformas está avançando.

Nestas plataformas sociais o jornalismo investigativo de alto valor cívico é desencorajado e até discriminado por um sistema de valores e métricas que priorizam a escala, reações emocionais e compartilhamento.

Até então estas plataformas não demonstravam o menor interesse em investir recursos na edição humana, não só devido os custos da mão de obra especializada, como pela crença na eficiência e no poder de isenção da inteligência artificial.

No entanto, com a polêmica do "fake news", resolveram reconsiderar essa abordagem inicial passando um investir uma pequena parte do faturamento na criação do ambiente nativo para terceirização do processo de produção do conteúdo e curadoria.

Por tráz desta manobra está a ideia básica de preservar intactas suas máquinas bilionárias de publicidade programática. Em 2015, 90% do crescimento da receita de anúncios digitais foram abocanhados por Facebook e Google com publicidade "self service".

Gráfico mostra o universo de plataformas digitais operadas pela redação da CNN

Para os pequenos editores regionais e locais, uma possibilidade de publicar gratuitamente suas notícias no ambiente das grandes plataformas digitais soa como um luxo. O problema é que algumas redes como o Snapchat restringem a adesão através de contratos em que os editores se comprometem com termos de desempenho junto à audiêcia e volume de conteúdo.

Pode ser o golpe de misericórdia nas empresas jornalísticas não nativas do mundo digital. Como se não bastasse o desastre com a migração do público para as mídias sociais, as empresas tradicionais correm deve se prepararem para mais um retrocesso.

De grande protagonismo no século XX, o jornalismo caminha para a figuração neste novo século, podendo acabar como departamento de conteúdo no porão de alguma plataforma digital, sem acesso aos dados coletados de sua audiência, sem controle de sua produção e totalmente a mercê do algoritmo.

 

avatar Avelar Livio Santos
Jornalista e consultor de internet
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